“Como será a visão da criança?”
Foi a partir dessa pergunta, aparentemente simples, que a professora e escritora Catia V. Frazzatto começou a construir o universo de Tita, protagonista de seu primeiro romance literário. Uma menina autista que, em vez de ter sua história contada pelas pessoas ao seu redor, assume a própria narrativa e conduz o leitor por suas descobertas, sentimentos e experiências.
A ideia nasceu do encontro entre diferentes perspectivas sobre a inclusão escolar. Depois de décadas dedicadas ao magistério, Cátia conhecia de perto os desafios enfrentados por professores, alunos e famílias. Mais recentemente, trabalhando também com revisão de textos e produção editorial, teve contato com o manuscrito de uma acompanhante terapêutica que relatava os bastidores da inclusão escolar.
A leitura trouxe uma nova dimensão ao tema e despertou uma inquietação.
“Eu conheço a inclusão escolar sob a visão da professora e agora conheço a visão da acompanhante terapêutica. Como será a visão da criança?”
A pergunta se transformou em pesquisa, ganhou personagens e, aos poucos, encontrou seu caminho na literatura.
Nascia Tita.
Uma professora, muitas histórias e uma nova perspectiva
Com quarenta anos de experiência no magistério, sendo quinze deles na rede pública de ensino, Cátia construiu uma trajetória marcada pelo contato com diferentes formas de aprendizagem e desenvolvimento infantil.
Professora de Língua Inglesa, trabalhou também com crianças dos primeiros anos do Ensino Fundamental, acompanhando de perto situações que nem sempre encontram espaço nas discussões sobre educação: as pequenas conquistas, os conflitos silenciosos, as dificuldades de adaptação e os desafios cotidianos da inclusão.
Atualmente, além de professora, dedica-se à revisão de textos, ao copidesque e a diferentes etapas da produção editorial, desde o tratamento dos manuscritos até sua preparação para impressão.
Foi justamente nesse universo que encontrou uma das inspirações para o romance.
O manuscrito de uma acompanhante terapêutica, escrito como um diário, apresentava a realidade de famílias atípicas e crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A obra abordava vínculos, regulação emocional, cuidado e os desafios enfrentados por quem participa diariamente do processo de inclusão.
Ao conhecer esse relato, Cátia percebeu que já havia observado a inclusão sob diferentes pontos de vista. Faltava, porém, explorar literariamente a perspectiva de quem vivia aquelas experiências desde a infância.
“Tita não nasceu somente da minha imaginação. Ela nasceu de pesquisas sobre TEA, de reflexões sobre mim mesma, além de pessoas, lugares, situações e momentos marcantes que fui vivenciando ao longo da vida.”
O resultado é uma obra de ficção que reúne observação, memória, pesquisa e sensibilidade, sem pretender substituir relatos autobiográficos de pessoas autistas ou conhecimentos especializados sobre o tema.
Tita: uma história contada de dentro para fora

Em Tita, a protagonista percebe o mundo de maneira particular. Sons, luzes, cheiros, texturas e situações sociais podem assumir intensidades que outras pessoas nem sempre compreendem.
A narrativa acompanha a menina desde o nascimento até o início da vida escolar, apresentando acontecimentos cotidianos a partir de sua própria perspectiva.
Uma conversa, uma brincadeira ou uma comemoração em família, situações aparentemente simples para muitas pessoas, podem envolver uma complexidade sensorial e emocional significativa para Tita.
Mas o romance não se limita a apresentar dificuldades.
Ao longo da história, a personagem cresce, descobre possibilidades, estabelece vínculos e constrói sua maneira de compreender o mundo. Paralelamente, seus pais enfrentam dúvidas, inseguranças e desafios relacionados ao diagnóstico e à inclusão.
A família também aprende e se transforma.
Essa construção permite abordar a inclusão não apenas como uma questão de adaptação individual, mas como uma responsabilidade compartilhada. Afinal, acolher alguém não deveria significar exigir que essa pessoa abandone suas particularidades para corresponder às expectativas dos outros.
Para Cátia, era fundamental que a protagonista existisse para além do diagnóstico.
“Eu queria uma leitura leve e fluida, mas que carregasse a intenção de fazer o mundo pensar sobre a inclusão com empatia, ao escutar a voz de quem a vive na pele diariamente.”
A escritora também faz questão de esclarecer que Tita é uma personagem ficcional, construída por meio de pesquisa e experiências pessoais.
“Tita é uma obra de ficção, não um manual clínico e frio sobre o TEA.”
Essa distinção é importante. A experiência autista é diversa, e nenhuma personagem, por mais cuidadosamente construída que seja, poderia representar todas as pessoas no espectro.
A literatura, entretanto, pode abrir caminhos para novas perguntas, ampliar a escuta e estimular reflexões que ultrapassam os limites de uma história.
Quando a personagem também carrega um pouco da autora
Há uma curiosidade especialmente afetuosa na origem do nome Tita.
Ele vem de Catita, apelido carinhoso pelo qual muitas pessoas conhecem a escritora.
A escolha revela uma proximidade que vai além da sonoridade. Embora a protagonista seja uma criação ficcional, Cátia reconhece que diferentes aspectos de sua trajetória pessoal estão presentes na personagem e nas situações que compõem a narrativa.
“Há muito de mim em Tita. Não só como professora, mas como pessoa.”
Memórias da infância, experiências escolares e acontecimentos vividos ao longo dos anos foram se entrelaçando às pesquisas realizadas para a construção da obra.
Esse processo também se estende aos próximos volumes da trilogia, especialmente ao segundo livro, no qual a autora incorpora situações que vivenciou tanto como professora quanto como aluna.
É uma relação interessante entre vida e ficção: experiências reais não são simplesmente reproduzidas, mas transformadas em elementos de uma narrativa que procura alcançar questões mais amplas.
Talvez seja justamente essa combinação de observação e envolvimento pessoal que dê à proposta literária uma dimensão tão particular.
Tita nasce da imaginação de sua criadora, mas também de muitas histórias que passaram por sua vida.
Uma narrativa que também acontece nas páginas
Uma das escolhas mais interessantes do projeto está na própria apresentação visual do livro.
Para Cátia, não bastava escrever sobre uma personagem que percebe e organiza o mundo de maneira singular. A experiência de leitura também poderia dialogar com essa proposta.
Por isso, a autora decidiu não seguir rigidamente alguns padrões tradicionais de alinhamento, espaçamento e organização visual.
As pausas, os espaços e as quebras foram pensados como elementos da narrativa, contribuindo para a construção do ritmo e da experiência que o romance pretende oferecer.
“A própria forma como construí este livro faz parte da experiência.”
Segundo a escritora, a diagramação foi concebida como uma extensão da maneira pela qual Tita percebe, processa e organiza o mundo.
A proposta não significa que exista uma única forma autista de perceber ou organizar informações. Trata-se de uma escolha artística específica, criada para expressar a subjetividade daquela personagem.
É também uma maneira de lembrar que a literatura não se constrói apenas com palavras.
O espaço em branco, a disposição dos parágrafos e o ritmo visual das páginas podem participar da experiência narrativa, provocando sensações e convidando o leitor a prestar atenção à própria maneira de ler.
Nesse sentido, forma e conteúdo caminham juntos.
Uma personagem que precisava continuar crescendo
Inicialmente, Cátia não imaginava que a história tomaria as proporções de uma trilogia.
À medida que desenvolvia o roteiro e aprofundava as pesquisas, percebeu que havia muito mais a explorar. As diferentes fases da vida da protagonista traziam questões próprias, e encerrar sua trajetória na infância significaria deixar muitas histórias pelo caminho.
“A trilogia surgiu quando percebi que a Tita teria muito a contar.”
O primeiro volume, já concluído, acompanha a personagem desde o nascimento até o início da vida escolar. É nesse período que o leitor conhece sua percepção do mundo e acompanha as primeiras descobertas e dificuldades vividas pela família.
O segundo livro, em fase de escrita, amplia a narrativa para a trajetória escolar, abordando amizades, pertencimento, identidade, desafios educacionais e a construção gradual da autonomia.
Já o terceiro volume, com roteiro concluído, acompanhará a vida universitária e adulta da protagonista, explorando questões relacionadas à carreira, aos relacionamentos, à maternidade, ao envelhecimento e à busca por uma existência autêntica.
A proposta permite observar algo que frequentemente recebe menos atenção nas conversas sobre autismo: a continuidade da vida para além da infância.
Crianças autistas crescem, tornam-se adolescentes e adultos, constroem relações, desenvolvem interesses e enfrentam novos desafios.
Suas necessidades, experiências e possibilidades também se transformam com o tempo.
Ao acompanhar Tita por diferentes etapas, a escritora pretende mostrar como as questões relacionadas à inclusão podem assumir novos significados ao longo da existência.

O caminho da capa e os significados de uma escolha visual
A capa do primeiro volume apresenta três figuras caminhando de mãos dadas por uma estrada formada por peças coloridas de quebra-cabeça.
A imagem reúne os principais elementos escolhidos pela autora para representar a trilogia: o caminho, a simbologia das peças e o crescimento da protagonista.
O percurso funciona como uma metáfora da vida, enquanto a presença da família sugere a importância dos vínculos e do acompanhamento nas primeiras etapas da jornada.
As peças de quebra-cabeça, tradicionalmente associadas ao autismo, foram incorporadas ao projeto visual como parte dessa construção simbólica.
É importante observar, porém, que seu uso não é consensual. Parte da comunidade autista questiona essa representação por suas associações históricas e por interpretações que podem sugerir incompletude ou a existência de algo a ser solucionado.
A própria diversidade de opiniões sobre esses símbolos mostra a importância de ouvir as pessoas diretamente envolvidas nas discussões sobre neurodiversidade.
Na concepção de Cátia, o caminho de peças coloridas representa a trajetória de vida e funciona como elemento de continuidade entre as três capas.
Conforme Tita cresce, sua representação visual também se transforma, acompanhando o amadurecimento da personagem ao longo dos volumes.
Assim, a imagem não pretende apenas identificar uma temática, mas conectar visualmente as diferentes etapas de uma mesma história.
Literatura, escuta e o direito de pertencer
Com aproximadamente 196 páginas, Tita é apresentado como um romance literário contemporâneo destinado a leitores interessados em histórias sobre relações humanas, infância, família e diversidade.
Embora dialogue diretamente com pais, educadores e profissionais ligados à inclusão, a proposta não se restringe a esses públicos.
Afinal, pertencimento, identidade, autonomia e aceitação são questões que atravessam diferentes experiências humanas.
O romance parte de uma realidade particular para convidar o leitor a refletir sobre algo mais amplo: quantas vezes interpretamos o comportamento de outra pessoa sem conhecer o que ela está vivenciando?
Quantas situações poderiam ser compreendidas de outra maneira se houvesse mais disposição para ouvir?
A literatura não oferece respostas definitivas para essas perguntas. Sua força está, muitas vezes, em criar oportunidades para que elas sejam feitas.
Ao escolher a primeira pessoa, Cátia desloca o centro da narrativa. Em vez de observar Tita apenas pelo olhar da família, da escola ou dos profissionais que a acompanham, o leitor é convidado a conhecer a perspectiva que a escritora imaginou para a própria menina.
É uma escolha narrativa que coloca a subjetividade da personagem em primeiro plano.
E talvez seja esse o aspecto mais significativo da obra: lembrar que, antes de qualquer diagnóstico, classificação ou expectativa social, existe uma pessoa com sua própria história.
No caminho colorido que atravessa a capa e seguirá pelos próximos volumes, Tita ainda tem muito a descobrir.
E o leitor, possivelmente, também.
Sobre a obra: Tita, de Catia V. Frazzatto, é um romance literário contemporâneo e o primeiro volume de uma trilogia. ISBN: 978-65-02-13758-1. A autora informou que o livro está disponível pelo portal da UICLAP: https://portal.uiclap.com
